Tudo que tem história tem mais vida, e o Xale Siurana é um pacotinho de vidas que se encontraram numa ideia
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Se você perdeu o lançamento do Clube Girafudo, o clube mais legal do mundo mundial, é sinal de que você não me segue nas redes sociais. Vamos resolver isso antes de começar esse post, que é pra mó de você não perder mais nada: segue no instagram, no facebook e cola lá no canal do youtube, que nunca mais você fica de fora de nada. Já foi? Maravilha. Agora, deixa eu te contar um pouquinho mais sobre essa peça.

Maressa da Fio Fio Crochê, em seu Xale Siurana coral. Minha testadora do coração, uma amiga animada e competente <3

Meu amor por xales (que vocês já devem conhecer desde essa época aqui), começou quando eu era ainda pré-adolescente. Sempre adorei coisas balançantes e esvoaçantes, vestidos enormes, mangas bufantes e acho que migrar pros xales foi uma progressão natural desse amor. Não é que tenha havido um momento em que passei a gostar deles: é que um belo dia, a ficha caiu (imagino que motivadíssima pela Jade, da novela “O Clone“) e eu percebi que 14 anos de vida sem ter um xale pra chamar de meu, era tempo demais.

Esse xale é o Lost in time, receita da Johanna da Mijo Crochet, que foi valentemente traduzido pro português pela Estela Mizukawa. Até hoje (fiz ele em 2017) recebo mensagens inbox perguntando que receita é essa. Lindão que eu amo <3

Resolvi o problema comprando um xale, da Dona Maria, uma senhora que fazia todos os crochês do mundo (a casa dela era, real oficial, coberta deles desde as paredes até o chão, almofadas e toda e qualquer superfície). Minha mãe, que estava comigo, disse à Dona Maria que eu amava fazer crochê (apesar de ter feito roupas, eu não me sentia pronta pra ser chamada de crocheteira, ainda. Sabia pouco, e tinha vergonha de dizer que fazia, porque na real, não sabia nem nome de ponto). Dona Maria pediu porque é que eu mesma não fazia um xale pra mim, e eu disse que é porque parecia difícil. Ela riu gostosinho e disse “mas é só ponto segredo” e eu ali, com aquela sensação de quem nem sabia por onde começar a explicar o tamanho do meu desconhecimento.

Nos rolês de Curitiba em 2018, com 2/3 da equipe do Ami.Br, especialista em amigurumi e em tradução de receitas. Eu, Valéria e Bruna! Faltou o Rafa 🙂

Dos 14 anos até agora, muita coisa mudou. Já fiz xales de todas as cores, formas e tamanhos. Já presenteei as mulheres da minha vida (irmã mais velha tinha uma gaveta só deles), já vendi alguns (doeu) e já encontrei várias maneiras de usá-los. E, o mais importante: nutri por ANOS a ideia de criar uma receita minha. Mas, como todo bom projeto pessoal, adiei até que realmente, precisasse de uma receita significativa: o nascimento do Clube Girafudo.

A placa diz “Perigo. Precipício. Cuidado” em catalão, espanhol e inglês. A cidade todinha mora sobre precipícios. FIco pensando que eu ia ter medo até de4 rolar da cama.

Foi durante um passeio pela cidade de Siurana, um lugar lindo e isolado que fica no topo de uma montanha, que os ventos do mundo inteiro bateram em mim e me deram a ideia de fazer esse xale. Eu ainda não tinha clareza dos pontos que queria usar, mas precisava de um xale que respondesse ao vento. Lindo, esvoaçante e enorme, e que fizesse a “Jade do Clone” que vive dentro da minha mente, dar gritinhos de emoção. Em árabe.

No topo de Siurana fazendo o quê? O quê? Crochetando um xale. Óbvio. Hahahaha (mas já com siricotico pra criar esse que começava a tomar forma na minha cabeça)

Como tudo está conectado, este lugar é recheado de história. Entre elas, a mais importante de todas: a história de uma rainha árabe que governou Siurana. Ao ver sua cidade invadida a rainha moura de Siurana preferiu montar seu cavalo e se jogar nos braços do vento, a ser capturada pelo exército inimigo. Apaixonada pelo dom da vida que sou, jamais cogitaria fazer o mesmo, mas não pude deixar de meditar na valentia que esse ato envolve. O lugar onde ela saltou é muito visitado, até os dias de hoje.

Mulher jovem, envolvida em um xale, sorrindo e olhando para a câmera, num dia ensolarado.
Aquele olhar sereno de quem conseguiu criar o xale que queria – meses depois – e compartilhar no projeto com que sonhava há tanto tempo quanto

Criar essa receita foi um prazer, uma conquista e uma reconexão com antigos desejos. Fazer as fotos, diagramar junto com a Fabulouser e lançar no mundo, um ato de coragem, de desafio aos sentimentos que me fazem duvidar, todos os dias, do que eu sou capaz de fazer. Mas nada poderia me preparar para experimentar a aceitação que o xale e o Clube tiveram. Foi uma experiência que me pôs de joelhos, que me fez reconhecer a bênção que é estar aqui. Que me fez sentir extremamente privilegiada, ao me notar cercada de pessoas incríveis e dispostas a construir coisas novas, junto comigo.

Queria voltar no tempo e envolver, nesse xale, uma adolescente insegura de 14 anos, que amava o crochê mesmo sem saber fazer direito, e que desejou, de todo o coração, as amigas que um dia ele traria.

Obrigada, comunidade querida. Shukraan. <3

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